quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Capítulo 01

"Uma casa abandonada é um corpo sem alma que insiste em ser lembrado." A frase não saia da cabeça de Penélope. Lera em um livro ou escrevera em algum muro quando jovem, não sabia mais. Em um mundo daqueles, aliás, nada poderia ser dado como certo.

Mas a frase martelava dentro dela e ganhava uma escala gigantesca enquanto observava aquela cidade fantasma - mais uma das milhares abandonadas pela população durante a propagação do agente biológico.

Penélope chutou uma brinquedo quebrado (provavelmente pisoteado pela multidão em pânico daqueles dias) e riu do pensamento, afinal, que tolice tentar correr do inevitável. A nuvem atingira a todos, sem exceção. O planeta fora encharcado daquele inseticida alienígena. Por algum motivo, Penélope e alguns poucos se mostraram imunes aos efeitos.

O que parecia uma sorte, porém, às vezes punha dúvidas no peito da garota e, anos mais tarde, da mulher que mantinha aquela sina absurda de sobrevivente. Não teria sido melhor partir com os outros? Valia a pena lutar por uma existência daquelas, sempre em fuga?

Tinha 13 anos quando tudo começara e agora, perto dos trinta, parecia esquecer-se com mais frequência de como era a vida antes da nova realidade. Com algum esforço lembrava-se das capas de revista anunciando que "os trinta anos de idade são os novos vinte" ou que "os sessenta eram os novos quarenta" - o envelhecimento, pelo visto, havia parado naqueles tempos, mas retomara seu curso normal nos anos após a invasão, como mostravam as mãos e o rosto de Penélope.

A futilidade das revistas masculinas e femininas da época (que Penélope só começara a entender com o início das dificuldades dos sobreviventes) pareciam em suas memórias proporcionais às tragédias exageradas que inundavam as capas dos jornais diários e alguns programas de notícia.

Nos dias em que a ameaça se tornou iminente, contudo, muitos jornais emudeceram - não havia a quem culpar ou como combater as naves, e o drama dos que sofriam só parecia aumentar o pânico nas ruas. As rotativas pararam, os canais perderam o sinal.

As revistas persistiram alguns poucos meses. Tentaram manter a rotina, divulgando chamadas bizarras que ensinavam "10 formas de combinar máscaras anti-gases com as novas coleções da moda", "Decore o bunker da sua casa com materiais reciclados" ou "Como a manter a saúde mesmo com o racionamento de alimentos."

DVDs piratas de realities-shows sobre sobrevivência e cultos que professavam o fim dos dias  tornaram-se febre enquanto as conexões de internet ainda podiam ser hackeadas para curtas distâncias. Foi quando as naves lançaram "a nuvem".

Verde, pegajosa e mortal. Uma vez inalada ou em contato com a pele, asfixiava e matava a pessoa em menos de 30 segundos - quem tinha visto ao menos uma dessas mortes, porém, dizia preferir ser rasgado vivo a sofrer a dor que emanava dos olhos de quem era atingido.

Mas o procedimento parece não ter funciondo como o esperado. Em vez de evacuação total, começaram a surgir multidões de corpos errantes e com poder de destruição em massa.

O princípio ativo da nuvem fez dos atingidos hospedeiros. Crescia dentro deles e reativava funções vitais.

Transformados em mortos-vivos, pareciam não pensar, não reconheciam amigos e parentes, apenas erravam e alimentavam-se sem pausa para descanso ou desvio de qualquer perigo - certa vez Penélope encontrara um preso em uma privada onde havia pisado e engarranchado o pé quebrado e era bem comum ver os contaminados presos em buracos ou trancados em salas onde bastaria girar uma maçaneta.

As naves partiram e deixaram observadores, mas mesmo eles pareciam surpresos e sem reação diante dos mortos que se levantavam. Muitos dos que sobreviveram à nuvem padeceram ao serem atacados pelas manadas de infectados.

Mas as casas vazias amedrontavam Penélope mais que suas lembranças do período de invasão. Mesmo adulta, mesmo sendo uma das melhores resistentes de seu grupo, ainda assim, ela temia aquelas tocas escuras caindo aos pedaços e ainda repletas da gosma verde e fedorenta lançada pelas naves.

Despertavam nela um medo instintivo e proporcional ao que sentia pelos mortos que tornaram à vida após a invasão. "Um corpo sem alma é uma casa abandonada que insiste em ser lembrada", pensou Penélope.

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